segunda-feira, março 19

descobri no adeus
céus destelhados
e neles colori
ramalhetes de estrelas

quarta-feira, janeiro 31

estive nua
e você não viu
escolheu não saber
que eu joguei ao acaso
todos os erros, os acertos, as mentiras
até mesmo a esperança
pra ser teu o meu amor
sem importar-me com o tempo
no teu rosto escrito em marcas
porque no meu ainda era breve
como se soubesse desse amanhã
agora estrangulado em minhas mãos
aprendizes de outros caminhos
menos sós, sem você.

sexta-feira, janeiro 12

exponho o nervo
a fibra muscular
a quietude dos ossos -
falta pouco para ficar nua
e rumar outros caminhos
distantes e calorosos, todos
por onde não encontrarei
teus demônios insones e cegos:
só os meus
só os meus

terça-feira, janeiro 2

estranhos
era o que parecíamos
com piadinhas imbecis
temperando relatos dum cotidiano
impregnado de nós dois.

estranhos
foi o que fizemos conosco
ilustrados por cores frias
sobrevivendo a mais um ano
sem nada de novo.

quinta-feira, dezembro 7

sim, você sabia
não bastar mais fingir,
pois as palavras girariam na sua boca
até cairem, desacreditadas
amargando toda felicidade
que nos fizera radiantes:
nosso amor tinha morrido.

por que então
não vomitou tudo na minha cara
preferindo agarrar-se à comodidade
como se assim não fossemos
mais cedo ou mais tarde
amputar nossos sonhos
sufocando-nos na apatia do dia-a-dia
e melancolicamente
feito dois estranhos sob o mesmo sol,
entristecer como entristecem as fotos
emolduradas e postas sobre móveis
duma sala-de-estar vazia.

sexta-feira, novembro 17

tentara outras vezes
mas a vida retornava mais vazia
deixando tudo drasticamente insuportável
cometeu poesias, gritos, pulsos, abandono
cometeu até amar solitariamente
(ele não mais saberia, ela sempre jurava)
e agora, estava ali, diante do próximo passo
nas mãos um amontoado de acenos
nos olhos, lágrimas acumuladas de tempo
na ponta da língua as palavras, todas
só não sabia como dizer que o amor
que o amor que ela sentia não sabia morrer.

terça-feira, outubro 31

a janela aberta,
céu
palavras respirando outros amanhãs,
poesia
para que eu possa nuvem,
desmedida
azular o outono,
esperança
deixando a falta que sinto de ti,
amor
nas gavetas empoeiradas,
esquecimento

terça-feira, outubro 17

acreditei que se
eu escolhesse bem as cores
faria desse quarto um lugar
menos habitado de mim
menos saudoso de ti
mais isento de nós
...

terça-feira, outubro 10

as roupas despidas de mim
espalhadas pelo chão frio
desse quarto mal iluminado
ruminam sinais de nós dois
feito cicatrizes incolores
vez por outra a visitarem-me
no vazio que eu inventei
agarrada ao refugo da lucidez
para ser absurdamente possível
travestir-me de alegria
onde alegria não há

sexta-feira, outubro 6

a insegurança estava
emaranhada dentro de mim
e tinha dedos magros e longos
que apertavam meu pescoço
com a força exata para não deixar marcas
apenas sufocar lentamente
o amor que julguei não morreria
mas vi tropeçar em si mesmo
(ou no que acreditávamos sê-lo)
segundo após segundo
numa cadência monossilábica
até não haver mais nada
apenas ciúmes, brigas e cenas patéticas
naquilo que resolvemos chamar de fim

quinta-feira, setembro 28

eu sei
é apenas uma madrugada
entre tantas e tantas
que ainda virão
só não precisava ser assim
tão estrangulada
pelo amor que em nós
desistiu antes de saber
pra tudo haver um fim

sábado, setembro 23

o hábito simula felicidade
era o que eu descobria
ao cravar meus dedos
nos sorrisos que o nosso
mundo infestava
e já não mais suportava
a minha presença conosco
mas era preciso
continuar fingindo
para que a vida
seguisse seu rumo
assim mesmo,
amarelecida

sábado, setembro 16

a cada toque seu, eu dizia
não, nós perdemos a medida
e o nunca se tornou longe demais
mas insistias em acreditar nos finais felizes
sem ver a felicidade escapulir diante dos nossos olhos
fingindo não saber que dia após dia
nos era insuportável
disfarçar a incapacidade de percebermos
os cheiros misturados
de nós dois

(um mundo de cheiros imperceptíveis
é um mundo onde cores
desocupam as retinas e a vida fica vaga)


covarde
patético
frágil
indeciso
o homem que eu amo
em mim
morrendo no avesso solitário
de quem fomos

sexta-feira, setembro 8

ontem
eu soube de ti
já não tinhas mais
o teu caderno de poesias
nem desenhavas andorinhas
saudando as cores da primavera
era fim de tarde e o sol parecia cansado
eu te vi de relance a caminhar por uma ruela
quis teu nome de volta à minha garganta vazia de sons

só o que tive foi a certeza de trilhar sozinha o nosso caminho

quarta-feira, agosto 30

banco de praça
VAZIA
caderno nas mãos
SEM PALAVRAS
distantes memórias
ENRAÍZADAS

(eu saberia de ti cada mínimo instante
eu caberia em ti cada mísero centímetro
eu sonharia a ti meus anjos irascíveis
eu amaria você até
o próximo sol poente
nascedouro de estrelas
paridoras de auroras)

segunda-feira, agosto 28

Na mingua
De sentimentos
Estamos trancados
No lado de fora do medo
São-nos poucos os momentos
Preservando o anteceder desse fim
Chacoalhando-me a singela lembrança tua
Sussurrando que para sempre cuidaria de mim

sexta-feira, agosto 25

sol poente
é apenas um traço preciso
carente do oceano

estrelas são fagulhas
num céu desprovido
de cores vivas

e da poesia que me alimenta
nada resta sob minhas pálpebras
já cansadas de te esperar

terça-feira, agosto 22

vários por aqui passaram
já nem sei dos gostos
já nem sei dos humores
já nem sei das camas desfeitas
só o que tenho são fotos desorganizadas

(fotos não guardam o presente
mas impedem a partida do que não mais está)

tudo de nós ficou rabiscado na memória
como quem cantarola baixinho
distraidamente uma canção
em frágeis tons de fim de dia
mais triste que a mais triste das solitárias

(é o que restou nas minhas linhas

que um dia foram escritas só pra você)

sábado, agosto 19

meus dedos sem sono
recusam palavras
foge-me à força
de ti a esperança
trazendo imagens
que eu nunca quis

(já é fim de tarde
da sacada do quarto
vejo o céu desbotando
o azul das estrelas)

tudo o que aprendi
o que senti e o que menti
de nada mais importa
quando calo as páginas
desse pouco amor
que estagnou aqui

quinta-feira, agosto 17

(eu precisava saber
mesmo que fosse para nunca mais)
dos teus olhos, os sonhos meus
dos teus braços, o que me fazia ninar
da tua boca, a esperança dos sorrisos
das tuas mãos, o adeus
(para que restassem apenas lembranças

e não essa solidão desejosa de ti)